icterícia

Icterícia (pele e olhos amarelados): O Que É, Causas, Sintomas e Como É Feita a Avaliação

Perceber a pele ou os olhos amarelados costuma assustar, e com razão: a icterícia, conhecida popularmente como “amarelão”, é um sinal de que algo não vai bem no fígado, nas vias biliares ou no sangue. As causas vão de condições benignas e passageiras até doenças que exigem tratamento rápido. Neste guia, você vai entender o que é a icterícia, quais são suas principais causas, quais sintomas merecem atenção e como é feita a avaliação médica.

O Que É Icterícia?

A icterícia é a coloração amarelada da pele, das mucosas e da parte branca dos olhos (esclera), causada pelo acúmulo de bilirrubina no sangue. A bilirrubina é um pigmento amarelo formado a partir da degradação da hemoglobina, presente nos glóbulos vermelhos. Ela é processada pelo fígado, eliminada na bile e segue até o intestino, onde dá a cor característica das fezes.

Quando esse caminho é interrompido em qualquer etapa, a bilirrubina se acumula. Em geral, a icterícia se torna visível quando a bilirrubina total ultrapassa cerca de 2,5 a 3 mg/dL; o valor normal costuma ficar abaixo de 1,2 mg/dL. É importante lembrar que a icterícia não é uma doença em si, mas um sinal que precisa ter sua causa investigada.

Sintomas Que Podem Acompanhar a Icterícia

Além da cor amarelada da pele e dos olhos, a icterícia pode vir acompanhada de outros sinais que ajudam a indicar sua origem:

  • Urina escura, cor de chá mate ou de “coca-cola”
  • Fezes esbranquiçadas ou cor de massa de vidraceiro (acolia fecal), típicas da obstrução biliar
  • Coceira pelo corpo
  • Cansaço, náuseas e perda de apetite
  • Dor abdominal, principalmente no lado direito, comum quando há cálculos biliares
  • Febre e calafrios, que podem indicar infecção das vias biliares (colangite)
  • Perda de peso sem motivo aparente, sinal de alerta para tumores

Tipos de Icterícia: Pré-Hepática, Hepática e Pós-Hepática

Para facilitar o diagnóstico, os médicos dividem as causas da icterícia em três grupos, de acordo com a etapa em que o problema acontece.

Icterícia Pré-Hepática

Ocorre quando há destruição excessiva de glóbulos vermelhos (hemólise), produzindo mais bilirrubina do que o fígado consegue processar. É o que acontece em anemias hemolíticas, como a anemia falciforme.

Icterícia Hepática

Acontece quando o próprio fígado está doente e não consegue processar ou eliminar a bilirrubina adequadamente. Hepatites virais, hepatite medicamentosa, doença hepática alcoólica e cirrose estão entre as causas mais comuns.

Icterícia Pós-Hepática (Obstrutiva)

Surge quando algo bloqueia a passagem da bile do fígado para o intestino, como cálculos no colédoco, estreitamentos das vias biliares ou tumores. É nesse tipo que aparecem de forma mais marcante a urina escura, as fezes claras e a coceira, e é também o grupo em que o cirurgião do aparelho digestivo tem papel central no tratamento.

Principais Causas da Icterícia

Hepatites Virais

As hepatites virais A, B, C, D e E estão entre as causas mais conhecidas de icterícia. As hepatites A e E são transmitidas principalmente por água e alimentos contaminados, enquanto as hepatites B, C e D são transmitidas pelo sangue e por relações sexuais desprotegidas. Higiene, saneamento básico e a vacinação contra as hepatites A e B, que também protege contra a hepatite D, reduzem bastante o risco de infecção.

A hepatite B pode causar um quadro agudo com icterícia e, em parte dos casos, evoluir para infecção crônica. Já a hepatite C costuma ser silenciosa no início, mas se torna crônica na maioria dos infectados e pode levar, com os anos, à cirrose e ao câncer de fígado. A boa notícia é que a hepatite C tem tratamento com altas taxas de cura, por isso o diagnóstico precoce faz toda a diferença.

Hepatite Medicamentosa

Diversos medicamentos podem causar lesão no fígado e, consequentemente, icterícia. Entre os mais envolvidos estão:

  • Paracetamol em doses acima das recomendadas
  • Alguns antibióticos, como a amoxicilina com clavulanato
  • Medicamentos para tuberculose
  • Anticonvulsivantes
  • Suplementos, anabolizantes e chás considerados “naturais”

Quando a lesão do fígado causada por remédios leva à icterícia, a mortalidade pode chegar a cerca de 10%. Por isso, evite a automedicação e informe sempre ao médico todos os medicamentos e suplementos que você utiliza.

Doença Hepática Alcoólica e Cirrose

O consumo excessivo e prolongado de álcool pode causar inflamação no fígado (hepatite alcoólica) e, com o tempo, cirrose. Em fases avançadas, o fígado perde a capacidade de processar a bilirrubina, e a icterícia surge junto com outros sinais, como inchaço da barriga (ascite) e das pernas.

Colangite Esclerosante Primária e Doença Inflamatória Intestinal

A colangite esclerosante primária é uma doença inflamatória crônica das vias biliares que provoca fibrose e áreas alternadas de estreitamento e dilatação dos ductos biliares, dificultando a passagem da bile. Ela tem forte relação com a doença inflamatória intestinal: cerca de 3% a 6% dos pacientes com retocolite ulcerativa e aproximadamente 1,2% dos pacientes com doença de Crohn desenvolvem a condição. Por isso, quem tem essas doenças intestinais deve fazer acompanhamento periódico dos exames do fígado.

Cálculos no Colédoco (Coledocolitíase)

A coledocolitíase é a presença de cálculos (pedras) no colédoco, o principal ducto que leva a bile até o intestino. Na maioria das vezes, essas pedras se formam na vesícula biliar e migram para o colédoco, bloqueando a passagem da bile. É uma das causas mais comuns de icterícia obstrutiva e costuma vir acompanhada de dor abdominal; quando há febre e calafrios, pode indicar colangite, uma infecção que exige atendimento urgente.

Tumores do Pâncreas, das Vias Biliares e do Fígado

Tumores que comprimem ou invadem o fígado e as vias biliares também podem causar icterícia. Os principais são o câncer de pâncreas (especialmente na região da cabeça do pâncreas), o colangiocarcinoma (tumor dos ductos biliares), o carcinoma hepatocelular e os tumores da papila duodenal. Nesses casos, a icterícia muitas vezes aparece sem dor, acompanhada de perda de peso e coceira. Esse quadro é um importante sinal de alerta e deve ser investigado rapidamente, pois o diagnóstico precoce amplia as possibilidades de tratamento.

Outras Causas Benignas

Algumas condições benignas também elevam a bilirrubina. A anemia falciforme e outras anemias hemolíticas causam icterícia pela destruição acelerada dos glóbulos vermelhos. Já a síndrome de Gilbert é uma alteração genética comum e inofensiva, que provoca aumentos leves e passageiros da bilirrubina, geralmente em situações de jejum, estresse ou infecções.

Como É Feita a Avaliação da Icterícia

Descobrir a causa da icterícia nem sempre é simples. A avaliação combina informações clínicas e exames, em etapas:

Histórico clínico: o médico investiga o uso de medicamentos, suplementos e álcool, histórico de hepatites, transfusões, doenças intestinais e sintomas como dor, febre, coceira e perda de peso. Uma conversa detalhada muitas vezes já direciona o diagnóstico.

Exame físico: avalia a intensidade da icterícia, a presença de dor abdominal, o tamanho do fígado e do baço, a vesícula palpável e sinais de doença hepática crônica.

Exames de sangue: bilirrubina total e frações (direta e indireta), enzimas do fígado (TGO e TGP), fosfatase alcalina, GGT, hemograma, coagulação e sorologias para hepatites. A combinação desses resultados ajuda a diferenciar causas hepáticas, hemolíticas e obstrutivas.

Ultrassom de abdome: é geralmente o primeiro exame de imagem. Mostra se há dilatação das vias biliares, cálculos, alterações no fígado ou massas.

Tomografia e colangiorressonância: permitem estudar com detalhes o fígado, o pâncreas e as vias biliares, sendo fundamentais na suspeita de tumores ou de obstruções não esclarecidas pelo ultrassom.

Ecoendoscopia e CPRE: a ecoendoscopia avalia de perto o pâncreas e o colédoco, podendo inclusive colher biópsias. A CPRE (colangiopancreatografia retrógrada endoscópica) tem papel principalmente terapêutico, permitindo retirar cálculos do colédoco ou colocar próteses para desobstruir as vias biliares.

Tratamento da Icterícia: Depende da Causa

Como a icterícia é um sinal, o tratamento é sempre direcionado à doença que a provoca. Alguns exemplos:

  • Hepatites virais: acompanhamento clínico e, quando indicado, antivirais específicos
  • Hepatite medicamentosa: suspensão imediata do medicamento suspeito, sob orientação médica
  • Coledocolitíase: retirada dos cálculos por CPRE, geralmente seguida da retirada da vesícula (colecistectomia) por videolaparoscopia
  • Tumores: tratamento individualizado, que pode incluir cirurgia, quimioterapia e procedimentos para desobstruir as vias biliares
  • Síndrome de Gilbert: não exige tratamento, apenas orientação

Quando Procurar Atendimento Médico Urgente

Toda icterícia deve ser avaliada por um médico. Procure um serviço de urgência imediatamente se a pele ou os olhos amarelados vierem acompanhados de:

  • Febre alta e calafrios
  • Dor abdominal intensa
  • Confusão mental, sonolência excessiva ou agitação
  • Sangramentos, manchas roxas pelo corpo ou vômitos com sangue
  • Vômitos persistentes que impedem a alimentação

Nos recém-nascidos, a icterícia é frequente e tem características próprias, devendo ser avaliada pelo pediatra.

Perguntas Frequentes sobre Icterícia

Icterícia é contagiosa?

A icterícia em si não é contagiosa. No entanto, quando é causada por hepatites virais, o vírus pode ser transmitido, e por isso é importante identificar a causa e seguir as orientações médicas.

Icterícia tem cura?

Sim, na maioria dos casos. Ao tratar a causa, como retirar um cálculo do colédoco ou suspender um medicamento, a bilirrubina volta ao normal e a coloração da pele e dos olhos desaparece gradualmente.

Bilirrubina alta é sempre grave?

Nem sempre. Condições benignas, como a síndrome de Gilbert, elevam discretamente a bilirrubina sem trazer riscos. Ainda assim, somente a avaliação médica consegue diferenciar as causas benignas das que exigem tratamento.

Conclusão

A icterícia é um sinal do corpo que nunca deve ser ignorado. Suas causas vão desde alterações benignas até hepatites, obstruções por cálculos e tumores, e o tratamento correto depende de uma avaliação cuidadosa, com histórico clínico, exames de sangue e de imagem. Quanto antes a causa for identificada, maiores são as chances de um tratamento simples e eficaz.

Quer saber mais? Leia outros artigos e conheça mais do meu trabalho como cirurgião do aparelho digestivo no Rio de Janeiro.

 

 

Posted by Dr. Douglas Bastos